Poucos carros antigos brasileiros documentam tão bem uma sequência de mudanças de controle acionário quanto o Alfa Romeo 2300, sedã de luxo lançado em março de 1974 pela Fábrica Nacional de Motores, mas já sob comando direto da própria Alfa Romeo italiana. Essa continuidade de controle estrangeiro, observa o colecionador de veículos antigos Mário Augusto de Castro, marcou uma diferença importante em relação ao antigo FNM 2000 JK, que a FNM ainda produzia como empresa majoritariamente estatal antes de ser absorvida pela montadora italiana em 1968, um processo que mudaria completamente a natureza jurídica e comercial da fábrica de Xerém.
O projeto do 2300 nasceu na Itália, batizado internamente de 102/12, concebido inteiramente pela engenharia italiana especificamente para atender ao mercado brasileiro, com protótipo montado em 1971 e enviado ao Brasil para testes no ano seguinte. O lançamento comercial, em 1974, veio acompanhado do slogan “o importado fabricado no Brasil”, numa clara tentativa de associar o carro ao prestígio de origem europeia, mesmo sendo produzido inteiramente em solo nacional, na mesma fábrica de Xerém que já fabricava o antigo JK havia mais de uma década.
O motor de seis cilindros que nunca saiu do papel
O projeto original do 2300 previa a possibilidade de motores de quatro e seis cilindros, alinhado às pretensões de oferecer diferentes níveis de desempenho dentro da mesma linha de carroceria, ampliando o leque de opções disponíveis ao consumidor de alto padrão. A crise do petróleo da década de 1970, no entanto, associada às dificuldades de importação impostas pelo governo militar brasileiro daquele período, forçou a fábrica a adotar exclusivamente a versão de quatro cilindros, abandonando de vez os planos para a variante mais potente que havia sido originalmente concebida na Itália.
Mário Augusto de Castro nota que esse tipo de restrição imposta por fatores externos ao projeto original, energéticos e políticos ao mesmo tempo, era comum na indústria automotiva brasileira daquela década, obrigando fabricantes a redesenhar suas estratégias comerciais mesmo quando a engenharia já estava tecnicamente pronta para entregar uma versão mais robusta do produto.
O motor do 2300 e porque ele impressionava para a época
Apesar de limitado a quatro cilindros, o motor de 2.310 centímetros cúbicos do 2300 entregava 140 cavalos, equipado com duplo comando de válvulas no cabeçote e válvulas de escapamento refrigeradas a sódio, tecnologia emprestada da experiência aeronáutica da Alfa Romeo e rara em qualquer sedã nacional daquele período. Essa configuração levava o sedã a 170 quilômetros por hora de velocidade máxima, com aceleração de zero a cem em pouco menos de doze segundos, números expressivos para um carro que não tinha pretensões exclusivamente esportivas.

Mário Augusto de Castro retrata que esse tipo de sofisticação mecânica aplicada a um sedã de porte executivo, e não a um esportivo declarado, era raro no mercado brasileiro daquele momento, reforçando a posição do 2300 como o carro tecnicamente mais avançado disponível no país durante boa parte de sua produção inicial.
Por que a Alfa Romeo decidiu vender a operação brasileira para a Fiat?
Em 1978, a Alfa Romeo optou por deixar o cenário automotivo brasileiro, transferindo o controle da fábrica de Xerém para a Fiat, que assumiu integralmente a produção do 2300 e, aos poucos, transferiu a linha de montagem para sua unidade em Betim, Minas Gerais, onde instalações mais modernas prometiam corrigir problemas de corrosão que afetavam os exemplares fabricados no Rio de Janeiro. Segundo Mário Augusto de Castro, essa mudança de comando, motivada por decisões corporativas tomadas na Europa, encerrou o breve período em que a Alfa Romeo manteve produção própria fora da Itália.
Esse tipo de venda representa um padrão recorrente entre marcas europeias que tentaram se firmar no Brasil naquele período: decisões de matriz que raramente levavam em conta o desempenho comercial da operação brasileira isoladamente, encerrando projetos que ainda mantinham relevância técnica e comercial dentro do país.
O que a trajetória do 2300 revela sobre marcas europeias no Brasil dos anos 1970?
O caso do Alfa Romeo 2300 mostra como um projeto de engenharia sofisticada, desenvolvido especificamente para o mercado brasileiro, pode atravessar múltiplas mudanças de controle acionário sem perder completamente sua identidade técnica original, ainda que o nome e a gestão comercial mudassem ao longo do caminho. Do FNM estatal à Alfa Romeo italiana e finalmente à Fiat, o 2300 documenta três fases distintas da indústria automotiva de luxo brasileira em pouco mais de uma década, um percurso corporativo pouco comum mesmo entre os carros mais disputados do segmento executivo daquele período.
Ao fim, Mário Augusto de Castro salienta que resgatar essa trajetória completa é essencial para entender como decisões corporativas internacionais moldaram profundamente a identidade de carros vendidos ao consumidor brasileiro, muitas vezes sem que o comprador percebesse a complexidade das mudanças de controle acontecendo nos bastidores da própria fábrica que produzia seu carro, entre capitais estatais, italianos e finalmente do próprio grupo Fiat.
