O médico radiologista Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues aponta uma contradição pouco discutida no rastreamento do câncer de mama: mulheres com deficiência têm o mesmo direito ao exame que as demais, mas encontram obstáculos que muitas vezes as mantêm fora dos programas de detecção precoce. As barreiras vão da porta do serviço à forma de comunicar o resultado. Reconhecer os erros mais recorrentes é o primeiro passo para corrigi-los.
Estrutura física que impede a chegada
O primeiro erro está no acesso ao próprio serviço. Calçadas irregulares, escadas sem rampa, portas estreitas, banheiros e vestiários não adaptados afastam mulheres que usam cadeira de rodas, muletas ou andadores. A Lei Brasileira de Inclusão, de 2015, garante atendimento acessível nos serviços de saúde, mas a realidade de muitas unidades ainda não acompanha a norma.
O transporte agrava o problema. Para quem depende de veículo adaptado ou de acompanhante, a dificuldade de chegar ao serviço pode significar adiar o exame por anos. Em municípios pequenos, a oferta desse tipo de transporte costuma ser limitada e precisa ser reservada com antecedência. Sem planejamento, a convocação para a mamografia simplesmente não se converte em atendimento.
Equipamentos e posicionamento sem adaptação
O mamógrafo exige, em geral, que a paciente fique em pé e próxima ao aparelho. Mulheres que não conseguem permanecer em pé ou têm limitação de movimento nos braços e no tronco precisam de ajustes na altura do equipamento e de técnicas específicas de posicionamento, com a paciente sentada.
Muitos aparelhos permitem essas adaptações, mas as equipes nem sempre recebem treinamento para utilizá-las. De acordo com Vinicius Rodrigues, a falta de preparo leva a exames incompletos ou à recusa do atendimento, quando bastaria mais tempo de agenda e uma técnica adequada para obter imagens de qualidade. Em alguns casos, a ultrassonografia pode complementar regiões de difícil acesso, mas não substitui a mamografia quando ela é possível.
Comunicação que não alcança a paciente
O terceiro erro envolve a informação. Mulheres surdas podem não receber orientações sobre preparo e procedimento quando não há intérprete de Libras ou recursos visuais. Mulheres cegas precisam de explicações verbais detalhadas sobre cada etapa e de laudos em formato acessível.
No caso de deficiência intelectual, a comunicação deve ser adaptada, com linguagem simples, mais tempo de explicação e, quando possível, participação de familiar ou cuidador. Sem compreender o que vai acontecer, a paciente pode se sentir insegura e interromper o exame. Uma visita prévia ao serviço, para conhecer a sala e o equipamento, ajuda a reduzir a ansiedade em algumas situações.
Ausência de busca ativa e de registro
Os programas de rastreamento costumam convocar a população feminina de forma geral, sem identificar quem precisa de apoio específico. Mulheres com deficiência acabam dependendo da iniciativa própria ou da família para conseguir o exame.
Registrar as necessidades de acessibilidade no cadastro da atenção primária permite planejar o atendimento antes da chegada ao serviço. Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, agendar horários mais longos, reservar transporte adaptado e avisar a equipe de imagem com antecedência são medidas simples que mudam o desfecho da convocação.
Rastreamento que inclui todas as mulheres
A deficiência não reduz o risco de câncer de mama. Algumas condições, ao contrário, dificultam a percepção de alterações no próprio corpo ou a comunicação de sintomas, o que torna o rastreamento ainda mais importante para esse grupo.
Corrigir as barreiras exige atenção à estrutura, treinamento das equipes e planejamento da rede. Conforme ressalta Vinicius Rodrigues, um programa de rastreamento só alcança seus objetivos quando chega a todas as mulheres da faixa indicada, e a acessibilidade precisa ser tratada como parte da qualidade do serviço, e não como exceção.
